Matéria publicada no jornal A Voz da Serra
Opa! Tudo verde?
Bora pra mais uma prosa sustentável!
Filho de pescador e mãe artesã, nasci em São Gonçalo (RJ) e cresci aprendendo a enxergar possibilidades para além do que os olhos viam. Imaginar futuros sempre foi um instinto herdado. Muitas vezes vi meu pai empurrando um carrinho de mão pelas ruas do bairro para vender peixe — e, quando o mar não ajudava, reinventava o sustento: colhia ervas medicinais perto das dunas de Cabo Frio (RJ) que eram rapssados para clientes fiéis, vendia redes, tarrafas e puçás em diferentes cantos do Rio de Janeiro. Vi também minha mãe transformar linhas em sustento, tecendo crochê nas pontas dos panos de prato que vendia entre vizinhos e familiares. E, mesmo nos dias mais simples, nunca faltou pão — porque nunca faltou dignidade nem vontade de fazer dar certo.
Criar algo novo continua sendo um desafio constante, e é justamente nesse ponto que deposito minha energia. Mas sigo com o mesmo entusiasmo de quem sonha e com a responsabilidade de quem constrói, cuidando da empresa com consciência e propósito, para que ela cresça firme, sustentável e fiel às raízes que me ensinaram a acreditar.
Hoje apresento a criação de um produto novo artesanal.
Simples, criativo, turístico e funcional.
Sempre acreditei que produtos simples podem carregar grandes histórias — e foi com esse pensamento que criei um novo item sustentável que hoje vem conquistando turistas: imã de geladeira artesanal feito em madeira pintada e escrito manualmente por mim. Ao fazer os primeiros itens, me lembrei da época que trabalhei como cartazista num supermercado da cidade.
A madeira utilizada não é reaproveitada, mas adquirida de fornecedores certificados, garantindo origem legal, manejo responsável e respeito às normas ambientais. Essa escolha reforça meu compromisso com a sustentabilidade desde a base do processo produtivo, unindo responsabilidade ambiental e valorização do trabalho artesanal.
Cada peça é criada de forma individual e artesanal. Após pintar e montar as madeiras, escrevo as frases à mão, renovando constantemente as mensagens. Não há um padrão fixo — as palavras mudam, os sentimentos se reinventam, e assim cada imã nasce único. Em todos eles faço questão de incluir “Nova Friburgo”, reforçando o valor turístico e afetivo que a cidade carrega.
Essa singularidade tem despertado o interesse dos visitantes, que encontram no produto um souvenir autêntico, personalizado, simples e repleto de significado. E, em cada peça, também deixo impresso meu carinho por esta cidade que me acolheu e me presenteou, em 2016, com o título de cidadão friburguense — um reconhecimento que carrego como quem guarda um abraço permanente.
Os imãs passaram a ser comercializados na loja da EcoModas, localizada no teleférico, e tiveram excelente aceitação desde o início. Após a validação inicial da ideia — aprovada pela sócia e esposa — foi desenvolvido um MVP (Minimum Viable Product – Produto Mínimo Viável), permitindo aprimoramentos progressivos com base no comportamento real dos consumidores. Observou-se que muitos turistas que adquirem outros produtos ecológicos da loja quase sempre incluem também o imã na compra. A combinação de preço acessível, estética artesanal e mensagem positiva transforma o produto em uma lembrança significativa e de alto valor simbólico.
Educação e propósito por trás de cada peça
A comercialização dos imãs contribui diretamente para custear minha graduação recém-iniciada em Gestão de Turismo — uma escolha motivada pela compreensão do papel estratégico que o setor exerce no desenvolvimento econômico e nos impactos sociais e ambientais dos destinos. Nesse sentido, o produto desenvolvido assume também um papel formativo em minha trajetória pessoal e profissional. Desde cedo compreendi que alcançar objetivos exige iniciativa para criar condições favoráveis e capacidade de leitura de cenários.
Dentro desse contexto, o imã acaba contribuindo ainda mais amplamente para o turismo do que aparenta à primeira vista. Ele funciona como um agente de promoção territorial, levando o nome da cidade para outros lugares e mantendo viva a memória da experiência do visitante. Paralelamente, realizamos atividades constantes com turistas em nossa sede, incluindo ações de educação ambiental e o fornecimento de bombas de sementes que são lançadas nas matas da região para enriquecer a Mata Atlântica. Já são mais de 10.000 bombas distribuídas e lançadas, envolvendo crianças, jovens e adultos.
Tamanho do mercado
Embora não exista um dado oficial que isole especificamente o tamanho do mercado de souvenirs no Brasil, é possível compreender sua dimensão ao analisá-lo dentro do cenário mais amplo do turismo. Em 2025, turistas estrangeiros injetaram cerca de US$ 7,9 bilhões (aprox. R$ 41,5 bilhões) na economia brasileira — o maior valor já registrado, segundo dados do Ministério do Turismo e da Embratur (Gov.br, 2026), com base nas estatísticas oficiais do Banco Central. Estudos internacionais indicam que, em média, entre 10% e 20% dos gastos de viagem são destinados a compras, categoria que inclui lembranças e artesanato local. A partir dessa referência, estima-se que o segmento de compras turísticas no país tenha movimentado algo entre R$ 4 bilhões e R$ 8 bilhões em 2025, evidenciando que, mesmo sendo um nicho, o mercado de souvenirs possui relevância econômica e potencial significativo para iniciativas criativas e negócios locais.
As projeções apontam ainda que, em 2026, o turismo deverá movimentar cerca de US$ 167,6 bilhões na economia brasileira, representando aproximadamente 7,7% do PIB e sustentando cerca de 8,2 milhões de empregos. Esses números reforçam o turismo como um dos pilares do desenvolvimento nacional e evidenciam que investir em formação especializada na área não é apenas uma escolha estratégica, mas um passo essencial para construir experiências cada vez mais conscientes, responsáveis e transformadoras.
Um projeto para gerar impacto social
O projeto também nasce com uma perspectiva coletiva e de impacto social. Uma das metas é capacitar pessoas vinculadas a projetos sociais da cidade e das comunidades locais para que possam executar etapas do processo produtivo e se tornem fornecedoras parceiras. A proposta é estruturar uma rede colaborativa capaz de gerar renda, promover a troca de conhecimentos e fortalecer a economia local de forma sustentável.
Outro objetivo, a médio prazo, é estabelecer parcerias com empreendimentos do setor turístico, possibilitando que esses parceiros ofereçam este mesmo imã como uma lembrança sustentável aos seus clientes. Dessa forma, além de valorizar a identidade local, a iniciativa contribui para estimular práticas de turismo mais conscientes e responsáveis. Reconheço que projetos com propósito são construídos passo a passo — e essa é apenas a primeira página de uma história que ainda tem muito a crescer.
Turismo sustentável na prática
Produzir um souvenir sustentável enquanto estudo turismo é algo simbólico para mim. O imã representa exatamente o tipo de experiência turística em que acredito: aquela que valoriza o território, respeita o meio ambiente e gera impacto positivo real.
Hoje, cada pessoa que leva um desses imãs para casa não leva apenas uma lembrança — leva uma história, uma mensagem escrita à mão e a certeza de que está apoiando um projeto de vida que conecta educação, sustentabilidade e transformação social.
Pequeno no tamanho, mas imenso em significado, o imã alegre feito de madeiras coloridas revela — na visão de quem o criou — que inovação não precisa nascer de tecnologias complexas. Às vezes, ela brota de algo mais simples e poderoso: propósito, sensibilidade e a coragem de fazer diferente.
Saudações sustentáveis! Tudo verde sempre!
